Capítulo X
11 de julho.
- Bom dia, Minu.
- Bom dia, Aiolos.
Dez horas da manhã. Sim, eu sabia que o Aiolos era determinado e que ele já havia falado na fatídica noite anterior que hoje nós nos falaríamos. Mas o que eu não sabia era que ele iria me ligar às oito e meia da manhã.
Oito e meia!
De um domingo!
E bem na hora que eu estava tendo um sonho muito interessante com o Ikki. Pensando bem, talvez tenha sido bom ele ter me acordado.
- Como estão seus pés? - Ele perguntou quando entrava no meu apartamento.
Olhei para os pés em questão. Entretanto, o que eu via era duas massas disformes, vermelhas e doloridas, que mal sustentavam o meu peso, que - diga-se de passagem - nem era tanto assim.
- Mal. Mas eu sobreviverei. Pelo menos tenho esperanças.
- Minu. Desculpe-me. Ontem eu deveria ter cuidado melhor de você. Eu não percebi que os seus pés estavam tão mal.
- Sem problemas, Aiolos. Quase ninguém percebeu.
- O Amamiya percebeu.
- O Ikki não tinha à vista da sexy Pandora para distraí-lo.
- Só que o Amamiya já estava muito disposto a ajudar você. E você a ser ajudada.
Certo. No que dizia respeito à minha parte era verdade. Mas eu não admitiria. Por isso, fiquei em silêncio. Assim, pouco tempo depois, Aiolos continuou:
- Acho que agressões não nos servirão de nada.
- Tem razão. Desculpe-me.
- Não se desculpe. Não antes de eu terminar de falar tudo o que eu tenho pra falar.
- Pode falar.
- Eu não sei bem por onde começar... No Congresso... Eu e a Pandora ficamos no mesmo hotel...
- Pensando bem, eu acho que não quero ouvir. Sabe, sobre certos assuntos eu prefiro estar desinformada.
- Foi só um beijo. Eu juro.
O quê? Ele não foi violentado pela devoradora de homens?
- Só um beijo?
- Sim. Minu, eu juro que nunca quis trair você.
Se é pra ser sincera... Vamos colocar todas as cartas na mesa.
- Tudo bem, Aiolos. Até porque, eu acho que nós estamos quites.
Ele parecia surpreso e aliviado quando perguntou:
- Ikki?
Era a minha vez de ficar surpresa.
- Como você sabe?
- É meio óbvio. Da parte dele, principalmente.
- Não, Aiolos. Ele não gosta de mim. Não desse jeito, pelo menos.
- Eu seria capaz de apostar qualquer quantia como ele gosta de você desse jeito. No encontro do mês passado ele foi antipático comigo. Por quê?
- Porque ele é arrogante e irritante? - Arrisquei.
- Não. Porque eu era o seu namorado. Ontem no casamento eu percebi a vontade que ele tinha de me socar. E por quê?
- Porque ele é arrogante, irritante, e violento? - Arrisquei novamente.
- Não. Porque eu era o seu namorado.
- Eu queria muito acreditar, Aiolos. Mas o Ikki é apaixonado por outra mulher. Que eu não sei quem é, mas sei que não sou eu.
- Ele disse com todas as letras que essa mulher não é você?
- Não... mas...
- E você gosta dele, não é?
Mais cartas na mesa.
- Sim. Gosto muito. Desde que eu tenho quinze anos. Ou menos.
- Nunca pensei que passaria por isso, mas estou aliviado ao ouvir a minha namorada dizer que gosta de outro.
- E tudo isso causado por um furacão que atende pelo nome de Pandora Heinstein.
- É. Eu acho que estou realmente apaixonado.
- Ora vamos, Aiolos. Quero mais detalhes. Afinal, agora somos apenas amigos.
- Minu, eu adoro você. E eu ficaria muito feliz em poder ser seu amigo.
- Você já é meu amigo. Eu também adoro você, mas não fuja do assunto! Conte-me tudo sobre a sua horrível traição.
Ele riu.
- Só se você me contar sobre a sua.
- Fechado.
- Você fez bolo de chocolate?
- Fiz hoje de manhã, já que acabou o regime.
- Regime? Pra quê?
- Pra entrar no vestido e não ficar vulgar como a Pandora. Ops. Desculpa.
- Tudo bem. Aquele cabelo do Ikki estava meio suspeito.
Rimos. Afinal, gosto era gosto.
Instantes depois, já acomodado na cozinha e na metade do seu pedaço de bolo, Aiolos começou a contar.
- Depois da minha palestra sobre as características das obras de artes bizantinas, a Pandora foi conversar sobre alguns pontos do meu discurso.
- Ela sabe conversar? Pensei que logo desse o bote!
- Minu...
- Ei, agora você é meu amigo. Posso perturbar você. De qualquer forma, você tem que admitir que ela é um tanto quanto... - fiz um gesto vago com a mão, com o qual eu tentava qualificar a Pandora de uma maneira não muito grosseira.
Direta?
Eu tinha pensado em algo mais... ah, deixa pra lá!
- Sim. - Concordei.
- De fato. Ela é. Depois que nós conversamos, ela me convidou para ir até o bar do hotel. Mesmo eu não bebendo, fui. Talvez porque eu estivesse me sentindo lisonjeado pelo fato de uma mulher como a Pandora se interessar por mim.
Aiolos ainda não tinha um espelho em casa.
- Conversamos um pouco - ele continuou - e depois ela pediu pra eu acompanhá-la até o quarto.
Eu acho que isso é ser um pouco mais do que direta, mas...
- Ela me convidou para entrar, e eu disse que não estava disponível. Então ela pra se despedir me deu um beijo. Foi isso.
- E você continuou pensando nela por um bom tempo. Nossa... logo a Pandora.
- Você já a conhecia?
- Só de vista. Um dia eu estava chegando ao apartamento do Ikki e ela estava saindo.
- Ela me disse que ela e o Amamiya são bons amigos.
- Ela se encaixa perfeitamente no estilo das amigas do Ikki.
- Pode até ser, mas ele gosta mesmo é de você.
- Não, Aiolos, já disse...
- Sim, já disse... Agora me conte a sua traição.
Fiz um resumo do ocorrido desde o final do último encontro até a carona que o Ikki me deu.
- Eu não sabia que o seu carro tinha dado problema.
- Sim. O Ikki mesmo levou até a mecânica.
- O Amamiya não parece ser do tipo que se preocupa com o carro dos outros, se essa ação dele não mostra o quanto você é especial pra ele, eu não sei o que pode mostrar.
- Ele mesmo disse que amigos são pra essas coisas.
- Desisto. Mas saiba que eu fiquei muito feliz por você ter aceitado ser minha amiga. Seria muito triste viver sem o seu bolo de chocolate.
- Quer dizer que a única coisa de valor que eu tenho são os meus bolos?
- Você sabe que não.
- Sei, sim. Mas, leve um pedaço de bolo.
- Eu vou aceitar. Os trabalhos que eu tenho pra corrigir serão muito mais aceitáveis se eu estiver comendo o bolo.
Pouco tempo depois, quando eu fechava a porta para o Aiolos, o telefone tocou.
- Alô?
- Oi, Minu! Sou eu. Tudo bom?
- Oi, Eire! Tudo bem, exceto pelo fato de que você está falando com a mais nova solteira da cidade.
- Eba! Até que enfim você terminou com o Aiolos.
- Não fui exatamente eu quem terminou. Nós entramos em um acordo.
- Descreva melhor.
Detalhei a conversa que tive a poucos momentos com o Aiolos para a Eire. Ao final do meu relato, ela disse.
- Que ótimo. Assim você está livre novamente para o Ikki.
- Eire! O Hyoga não está perto?
- Não. Fique tranqüila. Ele está no quarto analisando um processo. Eu estou na sala.
- Menos mal. Mas tome cuidado com o que você fala, hein.
- Tudo bem. Tudo bem.
- Certo. Agora me fale como foi o resto da festa.
- Hum, já ia me esquecendo! Sabe os tios da Saori? Os que foram padrinhos.
Sim, eu me lembrava. E lembrava-me também da piadinha feita pelo Ikki...
- Sim.
- Então. O tio dela veio falar comigo, procurava você. Ele disse que você entrevistou-o há alguns anos.
Claro!
- Isso! Eu sabia que o conhecia de algum lugar. Eu o entrevistei para uma das minhas primeiras matérias do jornal.
- Ele queria cumprimentar você, mas como você foi embora cedo, ele não pode. Se bem que pela saúde dele, eu acho que foi bom ele não ter conseguido falar com você, do jeito que o Ikki estava possessivo ontem, ele poderia ter espancado o pobre senhor.
Eire riu da própria piada.
E foi a única.
- Não seja ridícula, Eire. E pare de ficar falando o nome do Ikki. O Hyoga pode ouvir.
- Já disse: fica tranqüila. E não adianta negar, todo mundo percebeu a mão dele na sua cintura. Vamos quero saber dos detalhes sórdidos.
- Não há detalhe sórdido algum. Ele só estava me ajudando por causa dos saltos do meu sapato.
- Claro. O Ikki é a pessoa mais altruísta do mundo.
Era melhor então nem falar sobre a massagem.
- Oh, cale a boca, Eire. Ou melhor, não cale. Fale mais sobre o resto da festa.
- Nada demais. Não sabia que festa de rico era tão sem graça. Só o Ikki que ficou a festa inteira com a cara amarrada, tanto que nem aquela amiga oferecida dele se exibiu mais.
- Claro. O alvo principal dela, o Aiolos, já tinha ido embora.
- É mesmo! E ela e o Ikki também foram embora cedo. Mais ou menos meia hora depois de você e do Aiolos.
Será que foram para o apartamento dele? Não, o Ikki disse que eles só eram amigos. Grande coisa. Eu e ele também somos e mesmo assim passamos a noite juntos!
Conversei um pouco mais com a Eire, e depois desligamos porque era hora de comer. Não que foi exatamente por isso, pois já perdemos inúmeras refeições por ficarmos conversando. Era porque não tinha mais assunto mesmo.
Almocei algo bem calórico para comemorar o meu primeiro dia de solteira.
Quer dizer, almocei algo bem calórico, para compensar o meu primeiro dia de solteira.
Passei a refeição toda pensando e criando hipóteses mirabolantes para tentar adivinhar se o Ikki tinha passado a noite com a Pandora ou não. Quando acabei de limpar a cozinha tive uma idéia que me pareceu fantástica.
Ligar para a devoradora de homens!
1. Se ela não estivesse em casa, era sinal de que ela tinha passado a noite com o Ikki.
2. Se o Ikki atendesse, eu teria uma prova irrefutável que eles tinham dormido juntos.
3. Se ela atendesse, eu diria que o Aiolos estava livre para que ela pudesse dar o bote final.
O primeiro passo foi achar o nome dela na lista telefônica.
Fácil. Não existiam tantos Heinstein assim. E mesmo se houvesse apenas uma teria o exótico nome de "Pandora".
Com o número dela nas mãos, não pensei muito e nem pedi a opinião da Eire, antes que perdesse a coragem liguei.
- Alô?
- Heinstein?
- Sim, sou eu. Pandora Heinstein. Quem é?
- Minu Setsuna.
Silêncio.
- Qual o motivo da sua ligação?
- Tenho dois avisos pra você.
- Que são...?
- O primeiro é que você já pode dar o golpe final no Aiolos.
- Como?
- Ele está solteiro.
- Ah, quer dizer que ele trocou você por mim.
- Nada disso, querida. Nosso relacionamento já estava mais para a amizade do que para um namoro, e nós resolvemos terminar. E não se gabe tanto, afinal, se você fosse tão irresistível, ele teria aceitado o seu inocente convite de entrar no seu quarto quando o Congresso foi realizado. E não teria dito que não estava disponível, não é mesmo?
Outro silêncio. Minu Setsuna, você é genial!
- Qual é o outro aviso?
- O Aiolos é uma pessoa maravilhosa. Se você usá-lo apenas para aumentar a sua lista de vítimas, você vai se acertar comigo, entendeu?
- Não que eu tenha medo de você, mas eu entendi. Minhas intenções com o Aiolos são... nobres.
- Não me atrevo a perguntar o que seriam intenções nobres para alguém como você. Mas acho que você entendeu os recados.
- Já disse que entendi. E... obrigada por avisar.
Por essa eu não esperava.
- De nada.
Eu já ia desligar quando ela disse.
- Minu? Vá em frente com o Ikki.
E desligou.
Que raiva!!! O que aquela... exibida sabia sobre mim e o Ikki?
Antes que eu pudesse elaborar mais algumas hipóteses tocaram a campainha.
Era Marin, que mesmo com seus quase cinco meses de gravidez estava mais linda do que nunca.
- Oi, Minu!
- Oi, Marin!
Fiz um gesto para que ela entrasse.
- Como você está? - Ela perguntou - O Aiolos falou algo sobre os seus pés.
- Os sapatos que eu usei ontem machucaram os meus pés, mas agora estou melhor.
- E com relação ao fim do namoro? Oh, Minu! Fui eu quem apresentou o Aiolos pra você, eu não queria que, por vocês terem terminado, a nossa amizade ficasse comprometida.
- Não, Marin! Claro que isso não vai afetar a nossa amizade! E eu e o Aiolos continuamos amigos.
- Sério mesmo? Eu acho que o escutei falando algo assim, mas nem dei ouvidos, quando ele chegou lá em casa e disse que vocês terminaram, eu vim logo pra cá, para saber o seu lado da história e como você estava.
Próprio da Marin. O que ela sempre dizia no jornal era que um fato sempre tinha, no mínimo, duas versões, e que antes de escrever qualquer coisa, nós tínhamos que conhecer essas versões.
- Eu estou bem, de verdade. E fiquei comovida com a sua preocupação. E a minha versão da história não é muito diferente da versão do Aiolos. Nós nos damos melhor como amigos do que como namorados. E estamos apaixonados por outra pessoa.
- Essa última parte eu não sabia.
- Acho que não tem problema eu contar. O Aiolos conheceu alguém nesse último congresso que ele participou.
- Uma professora de História?
Uma caçadora de homens, seria a resposta correta, entretanto com um leve sorriso no rosto, disse a profissão de fachada da Pandora.
- Administradora de Antiquário.
- Humm... Oh, meu Deus. Minu, ele traiu você?
- Não, Marin! Claro que não, afinal, o que o Aiolos fez não pode ser considerado traição. E de alguns fatos a Marin não precisa ficar sabendo, já que ela era casada com o irmão do Aiolos.
- Ah, bom! E você conhece essa mulher por quem ele se apaixonou?
- De certa forma, conheço. Ela é amiga de um amigo meu.
- E como ela é?
- E melhor você tirar as suas próprias conclusões.
- Certo. Mas e você? Por quem você está apaixonada?
- Por quem eu sempre fui.
- Aquele seu amigo engenheiro?
- Sim. O Ikki.
- E ele?
- Não sei. Sinceramente não sei. O Aiolos acha que ele sente algo por mim. Eu, não acredito.
- Se o Aiolos diz... Ele entende as pessoas muito bem. Ele sabia que eu e o Aiolia estávamos apaixonados antes de nós mesmos. Mas, fale-me mais sobre esse seu amigo.
Tivemos uma divertida conversa sobre o meu conturbado relacionamento com o Ikki e sobre o dela com o Aiolia, que para minha surpresa nem sempre foi um mar de rosas.
Quase duas horas depois do início da conversa a campainha tocou.
- Deve ser o Aiolia. Esqueci meu celular em casa, e por causa da gravidez ele anda um grude.
Mas não era o irmão Priamos mais novo.
Era o Amamiya mais velho.
Ikki Amamiya em carne e osso na minha porta. Lindo como sempre.
- Oi, Minu.
Marin já estava de pé...
Peraí!
- Você disse "oi"!
Ele deu um daqueles sorrisos irresistíveis por causa da minha observação. Mas era verdade. Ele nunca me dava "oi", aonde quer que fosse ele já chegava me provocando.
- Olá! - Marin disse.
- Ikki, essa é Marin Priamos, minha chefe e cunhada do Aiolos. Marin, esse é Ikki Amamiya, meu amigo.
Eles se cumprimentaram, e a Marin disse.
- É um prazer conhece-lo, Ikki. Mas, infelizmente, eu já estava de saída.
- O prazer foi todo meu. Até um outro dia, Marin.
Era incrível ver como ele era simpático com as mulheres.
Correção: Era incrível ver como ele era simpático como todas as mulheres que não se chamavam Minu Setsuna.
- Obrigada pelo bolo, Minu.
- De nada. Que levar um pedaço para o Aiolia?
- Não precisa. E se eu levar, o seu amigo fica sem. Você me acompanha até o elevador, o Aiolia não quer que eu ande de escadas.
- Claro. Ikki, entre e fique à vontade.
Quando eu e a Marin já estávamos a uma boa distância dos ouvidos do Ikki, ela disse.
- Eu dou toda a razão pra você por trocar o meu cunhadinho por esse espetáculo. Minu, esse homem é lindo! Levou do Aiolos o posto de segundo homem mais lindo que eu já vi na vida.
Rindo perguntei, enquanto esperávamos o elevador chegar:
- O primeiro lugar eu devo supor que seja do Aiolia?
- Lógico! - Ela também riu - Boa sorte, Minu! Se esse homem tiver um por cento de cérebro do que tem de beleza, ele não vai deixar você escapar. Quero detalhes amanhã. Quando chegar no Jornal, vá direto para a minha sala. - Ela já ia entrando no elevador, quando completou - Ah, se assim... por um acaso você tiver que se atrasar, fique tranqüila. - E piscou.
É... Hora de voltar pro meu apartamento e enfrentar o Sr. Irresistível.
Boa Sorte pra mim!
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
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